Ana Salgueiro Teatro - Aveiro

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Agustina e a Felicidade




O António Júlio Lemos (Samy) está a fotografar, com todo o seu profissionalismo, a peça Agustina e a Felicidade. Aqui algumas fotos do processo, de ontem à noite.

Amanhã é o último espetáculo, dia 30 de Janeiro no CETA.

Gosto muito desta gente e deste teatro.

Em algumas das fotos vemos também o Mané-Paquito a viajar com a Agustina, a qual precisa das suas cancions para animar a sua viagem.
Na vida real é o Mané que está prestes a viajar, imaginamos que em busca da sua felicidade. Dá-lhe Mané, e volta depressa.

Fica a amizade de sempre e a imensa, voraz vontade de novas viagens e de novas histórias, com novos começos e sempre infinitas.

O balão de ar quente já está de partida, e vai carregadinho de novas ideias. Overload.
Pelo caminho, quando sobrevoar campos e cidades, terá de se ver livre de algum desse peso. Que não sofrerá com a força da gravidade caindo por ali abaixo. Não senhora.

Voará, até a linha do horizonte.
Mãos à obra.

Ana








domingo, 22 de novembro de 2015

Em busca do filho perdido - Efémero 1995






Estas são as fotos de teste para o cartaz da primeira peça para a infância da Efémero - Companhia de Teatro de Aveiro, 'Em Busca do Filho Perdido' (1995 ? - 20 anos?) que o amigo e fotógrafo Manuel Teixeira me deu há algum tempo.

Lembro-me bem deste dia no estúdio dele. Lembro-me que fazia de mãe e de filho. Lembro-me que o querido João Brás era o Jô Tascão, meu pai e que o 'mau da fita' era o  'Palavras Fáceis' interpretado pelo Mário Montenegro. A peça era do fantástico louco José Geraldo.

Lembro-me que estava a acabar o mestrado em Coimbra nesta altura e que logo depois tomei a decisão de sair da Companhia.

Mas nunca me fui embora.

Esta conjugação de forças faz parte em mim. Apesar de haver alturas loucas como esta, em que a exigência está levada ao máximo em várias frentes de batalha, não desisto. É assim que eu vivo.

Gosto de ter o Teatro sempre por perto. Uma bússula que me indica o norte.
Que me dá a adrenalina e o estímulo para tudo o resto.

Sempre.

E sobretudo os outros, o que aprendo com eles, o brilho dos olhos deles a refletir novas viagens.
E o que isso alegra os que estão ao meu redor.
São coisas que me fazem feliz.


E aqui vão estas fotos, arrancadas ao fundo da gaveta, partilhadas, para me lembrar do que foi, do que é e do que será.

Uma questão de equilíbrio e de eterna brincadeira.



















terça-feira, 10 de novembro de 2015

Nothing happens by accident.

Escrevi isto no ar, entre Paris e o Porto, há umas três semanas, inspirada pelas amizades que encontramos em toda a parte, como foi o caso de reencontrar a Nandini, amiga indiana que vive no Reino Unido, na mesma mesa de jantar - à semelhança do ano passado - e por haver uma empatia instantânea entre nós.
Simpáticamente convidou-me para um clube de leitura e escrita no facebook, práticamente constituído só por indianos. Uma honra e um deleite observar a sua imensa cultura.
No jantar falámos de ... gostar de escrever. Ela perguntou se eu escrevia em inglês.
Eu disse que não mas que ia pensar nisso. E assim fiz. Já o partilhei no tal clube de leitura e escrita.
E foi assim: olhando pela janela e arranhando o meu inglês, pensei: há algumas certezas nesta vida. Foquei-me nestas três:
Somos um pequeno floco de nuvem, só fazemos sentido ao lado de outros flocos e nada acontece por acidente. Nothing happens by accident. Logo abaixo das nuvens está o poema.



Nothing happens by accident
Neither the trees nor the sea
What you can grab in your hand for a moment
That is the most beautiful thing you can see.
There are hands that cross each other
With the same way to see the world
And although we are sister and brother
What really is keeping us (or not) is the word.
Nothing happens by accident
Even if you stay a thousand kilometers high and away
What you can grab in your hand for a moment
That should be the beauty to lead your way.
In everywhere you find friends
With the same way to see the world
In every corner a friendly face
Ready to write with you the story untold.
Nothing happens by accident
Neither the journey nor the wish to stay
Nothing is the same in a new moment
Day or night and night or day.
Sometimes a big huge sadness
Is flying over the things you lost in your way
But there is always a way to avoid emptiness
If in your happy feelings choose to stay.
Nothing happens by accident
Neither the dinner nor the play
Because if you are always inside the moment
You can live longer
Yes you can, yes you may.
Sometimes nothing comes to your memory
Sometimes you feel empty in some way
But in the next moment you are telling a story
And the light of your head is there again

Ready to lead your way!

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Dança - Guetto Kids

Dança, expressão que conjuga outras expressões, tão antiga como o homem e por isso tão completa, mente e corpo em ebulição.

Estes Guetto Kids são fabulosos e é fabulosa a dança os torna pequenos reis e rainhas, tal é a intensidade da luz que elevam acima da pobreza.  De que pobreza estamos a falar afinal?

Se estamos a falar do corpo-memória, da imaginação pura e das viagens que a junção entre os dois nos permitem, independentemente da nossa raça ou credo, então eles são ricos.

Fazia-nos bem regressar de vez em quando a uma pureza contida dentro das barreiras da nossa racionalidade e que aguarda uma oportunidade para se expressar.

Por isso partilho esta descoberta.

Retrata bem a pureza da expressão, esse nosso eterno bloqueio.


Dança Africa1

Dança Africa2

Dança Africa3

Dança Africa4


segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Teatro coração, coração teatro.

O teatro cola-se à pele como um fungo e o que imagino dentro dele torna-se um motor para tudo o resto.

Esta foto é do cartaz da primeira peça da Efémero - Companhia de Teatro de Aveiro - 1995
em que eu fazia de 'Senhora Frank' com o meu bom amigo João Brás, Senhor Frank, numa encenação de Carlos Fragateiro.

A possibilidade de ser outros, sendo o mesmo - aliás já o disse - é viciante como água com limão e hortelã, gelada, no verão. Fica para sempre.

A possibilidade de continuar a fazer coisas novas dentro do teatro, novos trabalhos, fazer, fazer, fazer, em conjunto com outros, com um grupo, onde cada um se redescobre individualmente e coletivamente é como uma brisa suave que tudo empurra para a frente.

Cada novo ano, cada novo grupo, mais uma viagem. Vamos lá então!




quinta-feira, 8 de outubro de 2015

A bicicleta - 22 de Setembro de 2015


(ilustração de Boyoun Kim)


A bicicleta 

Quando monto na minha bicicleta
Sinto o vento,
Os cabelos atrás de mim,
as pernas em movimento.
Sinto o matraquear da calçada não adequada a tais devaneios.
Vejo os rostos preocupados.
Crispados,
de pensamentos pesados e velados, alheios.
As lojas vazias.
Os semáforos tristes e sem graça.
Os carros atarefados.
Alguns corpos suspensos e parados claramente sem saber para onde ir.
As esplanadas no meio do fumo.
Os passeios sujos.
As conversas sobre futebol.
Muita gente de auriculares a olhar para o chão.
Muita gente de fato com pasta,
Muita gente de fato sem pasta.
A empregada que insiste.
O talho que insiste.
Uma paisagem que não chega a ser triste.
Porque na verdade,
Na verdade,
Eu estou a caminhar sobre uma nuvem.
Eu estou a sobrevoar o oceano.
Eu estou a rasgar o vento por entre os picos do Evereste.
Na verdade se eu olhar bem:
Vejo o sorriso misterioso de quem acabou de amar a noite inteira;
Vejo a criança que se cola à mãe agradecida por esta lhe dedicar uma manhã inteira;
Vejo o merceeiro de bata que nos lembra que há um comércio justo por inteiro;
Vejo a nova loja verde que pendura manequins de outros tempos na varanda e onde todos querem ir.
Vejo o bar onde se ouve música bonita,
por entre duas cervejas e cerejas de conversas.
À noite vou lá,
e levo esta bicicleta.
Vejo os namorados que acabaram de se descobrir e que entre tremeliques deram as mãos.
Vejo a esperança de quem se dirige para uma nova entrevista de emprego.
Vejo quem acabou de conseguir um emprego com o ordenado mínimo e esboça um sorriso, mesmo que amarelo.
Vejo a recente mãe que passeia o bebé,
a pensar que provavelmente já perdeu o emprego.
Vejo o céu e os fios das nuvens de outono por entre as copas das árvores.
Vejo as pessoas que também estão a andar de bicicleta como eu.
Bom Dia!
Bom Dia!
Pressinto pela maresia o mar bem perto.
Uma paisagem a céu aberto.
E sinto a brisa e sinto os cabelos e o vento atrás de mim.
Neste país sempre à espera.
Neste país agarrado a uma vã quimera,
onde tanta gente desespera.
Um país que continua sem perceber
para que lado pedalar.


Ana Salgueiro, 22 de Setembro de 2015 – A bicicleta

domingo, 4 de outubro de 2015

PORTUGAL SLAM 2015 Lisboa

Foi um privilégio participar nisto, no meio de tantos especialistas fantásticos e experientes na matéria.

Não que isso seja importante mas porque muitos perguntam fica aqui o esclarecimento.
Éramos 10, fiquei nos 5 que não passaram à fase seguinte com uma pontuação rondando a média de 7,5 (quando nos pontuam a pontuação mais baixa e a mais alta não contam, eram cinco elementoas no júri creio). Nas palmas creio que foi 8,2. Mas não chegou para satisfazer o júri nem para avançar.

Seja como for adorei, simplesmente!

Deu-me um gozo imenso, estar ali, a matar a sede de palco. E abriu uma vontade imensa de continuar e fazer mais e melhor.

Tinha preparados mais dois poemas. É sempre difícil decidir qual devemos ler primeiro, afinal é um jogo. Ficamos sempre com a sensação que podemos não ter escolhido bem. Mas a vida é demasiado curta para este tipo de penas :)

Assim, o único poema que li nesta prova foi dito na primeira eliminatória de Aveiro. Aqui fica.

Mais abaixo as fotos da minha representação e aqui o link para todas as fotos do evento.

(Fotos do Portugal Slam 2015).

Mas mais importante ainda foi fazer novos amigos e conhecidos.

O Ator

Eu também sou poeta…
Disse o ator, com o olhar perdido, atirado para o fundo da sala…
Com o livro na mão direita…
Com o braço esquerdo a cirandar pelo ar….
Eu também sou poeta…continuava ele, o corpo retesado. 
Eu também sou poeta, ouviram? 
…………………………………………………………….
E o ator não reagia ao silêncio nem ao silvo dos pensamentos dos outros. 
Com um torpor ténue, ficava ali quieto, segurando o momento.
‘Tremu-luzente’ (uma mistura entre o trémulo e o que deita luz), 
Os olhos rasgados de dor e desejo.
Eu também sou poeta…dizia….
O actor sente instantaneamente uma dor intensa se for preciso.
Sente no presente uma dor quente se for preciso.
O actor sente e o olhar turva-se.
Pois claro que é poeta.
Eu também sou poeta dizia o actor….…
Ninguém dizia nada.
Ninguém dizia, ninguém na verdade sentia o que o actor sentia.
Eu também sou poeta, dizia ele e rangia os dentes, reluzentes…
Com vontade de comer esfregões da loiça…ou de ter alguém que o ouça. 
De repente a corda imaginária que o segurava partiu-se com um barulho seco….pac…
E ele caiu de joelhos.
Eu também sou poeta, dizia o actor
E gritava sem se cansar….
Eu também sou poeta….E o seu corpo rimava…
Coelho com joelho
Romã com maçã
Janeiro com primeiro
Situação com coração….
Cantava cantigas de amigo…Estrofes secas…como o trigo
Agitava os braços no ar….a querer ser dramático….
Mas sem perder o sentido prático…
Porque o actor sente instantaneamente uma dor intensa se for preciso.
Sente no presente uma dor quente se for preciso.
O actor fecha os olhos e grita
Aaaahhhhhhhhhhhhhhh
Eu também sou poeta….
Alguns braços surgem para o levantar do chão…
E ele sacode-os….deixem-me em paz porque eu também sou poeta e 
hei-de levantar-me do chão.
Eu vim aqui para ser poeta…..
Eu também sou poeta…

Aperta o livro contra o peito......baixa a voz e os olhos e sai de cena.