Ana Salgueiro Teatro - Aveiro

terça-feira, 16 de junho de 2015

Poesia

Quando pequena escrevia muito mas não me lembro do que escrevia.
Não guardei registos ou cadernos.
Mas lembro-me de a minha professora de português dizer ao António Torrado quando ele foi lá à escola (a Francisco Arruda): esta miúda escreve bem. Gosto muito dessa memória, claro.

Quando adolescente escrevi bastantes textos a que chamava poesia. Não creio que fosse, não estudei literatura ou português. Mas ainda os guardo, ali num caderninho. 

Ainda gosto muito de alguns deles.

Fui escrevendo, sempre com gosto, em todas as ocasiões, tendo sempre de me conter nos textos mais científicos e sendo criticada por ser demasiado literária. No entanto, por vezes dá jeito para justificar convenientemente alguns argumentos.
Seja como for lá aprendi a ser seca quando necessário, na ciência e na vida.

Mesmo assim não foi possível prender o desejo de criar outros mundos através da escrita, em peças de teatro. 

Depois torna-se um bichinho, mais insidioso que o teatro.

Recentemente, foi a Telma Feio do biscoito que me fez o convite para o Poetry Slam Aveiro 
Ganhei uma eliminatória e depois a final sempre por um triz, dada a elevada qualidade dos outros participantes. A Raquel Bontempo e a Rita Capucho também deram sempre um excelente incentivo, e amizade. E foi bom conhecer a fantástica Raquel Lima. Obrigada. 

E agora tenho de ir a Lisboa ao Poetry Slam Portugal. Ai, ai.

Claro que não vale a pena explicar o prazer que isso me dá e a vontade que me traz de ser melhor e de escrever sempre melhor. 

E a honra que é receber convites para ir ler poesia de outros, como aconteceu com o João Mocho. 

A poesia sem ser canção também é uma arma. Que nos ensina mais sobre nós próprios e sobre os outros e que pode também fazer ouvir a voz que quer falar do que está menos bem neste mundo. 
















quinta-feira, 23 de abril de 2015

O Livro 'O Rapaz Bicicleta'


Tenho outros, mas este é um importante combustível para a força que é necessária para tudo o resto.

Inventar e contar histórias e se for possível encená-las (adoro).

Este livro não é só para a infância como não são muito dos atuais livros que são supostamente para a infância. Têm muito de adulto que só adulto vê e sabe ;)

Aveiro tem uma livraria espetacular nessa matéria, a Gigões&Anantes.
É de ir e de visitar.

Foi um prazer fazer este e quero fazer mais. A Cláudia Alexandrino e a Maria Pinho ilustraram e o CETA recebeu a encenação, na qual participou uma mão cheia de gente bonita de que já falei noutro post, sobre O RAPAZ BICICLETA NO CETA.

Uma das coisas bonitas da vida, pelo menos da minha, que motivou e está a motivar, outras. Desta vez não há rapazes bicicleta, mas há .........










terça-feira, 14 de abril de 2015

Contar histórias com o Arteriso

Ao simpático convite dos queridos amigos da associação Arteriso, lá fui eu, contar duas historietas.

Uma ainda por acabar, cujos próximos episódios ainda estão na forja.

Para a outra, andei à procura de histórias sobre Aveiro.

Mas histórias que fossem lendas, como aquela do rei que mandou vir a princesa meia despida meia vestida.

Encontrei esta e achei bonita. Acaba em lágrimas que se transformam em beleza. Como assim o devemos na vida, à vida.

Ninguém sabe quem escreveu, conta-se, disse-me uma velhinha, etc.

Não me lembrei de todos os detalhes ao contá-la, mas fiquei a pensar: ficaria bem no teatro.

Um destes dias.

Aqui ficam mais fotos dessa sessão, cheia de gente bonita e belos contadores de estórias e outras mentiras.

Contadores de estórias do Arteriso - 2ª sessão

A Lenda do Barco Moliceiro da Ria de Aveiro

"...Há muitos, muitos anos - nem a velhinha que me contou, quando eu era menina, sabia quantos, - um pescador da Ria de Aveiro ouviu uma mulher a cantar e logo se apaixonou por ela só pela beleza da sua voz. Chamava-se Ramiro e era órfão de pai e mãe, tendo sido criado pela madrinha, uma solteirona bastante feia, baixa e gorda, de forte buço, que nunca encontrara quem gostasse dela para casar, embora tivesse um coração de pomba, terno e doce.
Ramiro vogava pelas águas espelhadas da Ria e foi guiando o barco para o sítio de onde vinha aquele doce cantar, deparando com uma jovem que se banhava, como se estivesse de pé, pois só se lhe via o corpo da cintura para cima, sem qualquer peça de roupa. Ela não fugiu nem parou de cantar, enquanto o pescador se aproximava. Ao vê-lo junto a si, sorriu-lhe e estendeu-lhe a mão, que Ramiro agarrou entre as suas, ao mesmo tempo que o coração acelerava os seus batimentos.
Era bela como uma princesa, com longa cabeleira de algas caindo-lhe pelas costas e torneando-lhe os peitos fartos e erectos. A sedosa pele era da alvura da areia da praia e os olhos tinham a cor verde do mar sem fundo. Os braços, compridos e esguios, terminavam em mãos de dedos finos, que iam movendo a água em seu redor, em gestos serenos e calmos, como se a afagasse.
Conversaram longamente e então ele disse-lhe:
- Amo-te e quero casar-me contigo!
A jovem sorriu e respondeu:
- Seria para mim uma grande felicidade casar-me contigo, pois nunca vi um homem mais belo e mais forte do que tu, mas, infelizmente, não pode ser. Eu não sou uma mulher, mas uma sereia.
Soltou a mão que o pescador tinha agarrada e deitando-se de costas na água, mostrou-lhe como a parte inferior do seu corpo tinha a forma de peixe, com cauda e escamas douradas, rebrilhando ao Sol.
- Sou a filha mais nova do Rei dos Mares e estou destinada a um Tritão, que me fará infeliz, porque não lhe tenho amor - continuou, começando a chorar e as lágrimas eram pérolas pequeninas, que ficavam a boiar, à sua volta.
- Não me importo que não sejas mulher - retorquiu ele. - Casa comigo e construirei para nós uma casa, metade em terra, para mim, e metade na Ria, para ti.
- Isso não pode ser! - insistiu ela. - O Tritão matava-me, porque é muito mau e feroz. Se eu pudesse transformar-me em mulher, então, sim, poderia casar contigo, mas nós sabemos que tal nunca será possível.
Estava muito triste agora a bela sereia. Atirou-lhe um beijo na ponta dos dedos, mergulhou e desapareceu.
Ramiro, antes de lançar a rede para pescar, ia todos os dias ao local onde tinha visto a sua amada, mas ela não tornou a aparecer. Assim, na sua faina diária, ora suspirava, ora cantava umas trovas tristes, que ele compunha na altura. Era o peixe que lhe dava o sustento para si e para a madrinha. Por vezes, ao cair do Sol, quando puxava a rede, julgava ver reflectida na água o rosto querido da bela sereia.
A madrinha, conhecedora daquele sofrimento e querendo-lhe como se seu filho fora, disse-lhe um dia:
- Devias ir à ti Bárb'ra, que é mulher de ciência. Talvez ela saiba uma maneira de transformar a tua sereia em mulher. Eu gostava muito de te ver feliz...
- Vou, sim, madrinha - respondeu o rapaz. - Por ela eu farei tudo!
- Então, tens de ir sozinho e de noite, que ela só tem poderes depois de se pôr o Sol.
Assim, ao morrer a tarde de um certo dia, ele meteu pés ao caminho, andando muito tempo sobre as dunas, até chegar a uma choupana sobranceira ao mar. O vento forte empurrava-o para trás e ele fazia um esforço redobrado para continuar a caminhar; terríveis relâmpagos cortavam o céu no escuro da noite, obrigando-o a fechar os olhos para não ficar cego; tenebrosos trovões faziam tremer a terra e a chuva era tanta, que lhe parecia que os próprios ossos estavam encharcados. Cheio de coragem, indiferente à adversidade da Natureza, bateu à porta da choupana, gritando:
- Ti Bárb'ra! Ó ti Bárb'ra!
Daí a pouco a porta abriu-se e Ramiro viu uma velha toda vestida de negro e com uma vela na mão, cuja chama tremulava com a ventania cá de fora.
- Entra, filho! - disse ela, com uma voz que lembrava uma gaita desafinada. - Eu sabia que vinhas.
Apesar de valente como poucos lá da terra, Ramiro hesitou por um instante, perante aquela figura sinistra, que mais parecia já não ser deste mundo, de faces cor de terra, um lenço preto à volta da cabeça, de onde caíam umas farripas de cabelo completamente branco, nariz afilado como uma faca, curvo como o bico do mocho, e uns olhos pequeninos, encovados, escondidos num montão de pregas da pela toda engelhada.
- Entra, filho! Não tenhas medo! - insistiu a velha.
Lá dentro havia uma fogueira e uma panela de barro sobre uma trempe, de onde saía um vapor que se desfazia no ar. As paredes de madeira davam a impressão de estar dançando com o reflexo das labaredas. Ao fim de algum tempo, começou a perceber que havia uma mesa no meio da choupana e que três gatos pretos dormiam ao pé do lume, aquecendo-se no braseiro.
- Ti Bárb'ra, eu venho cá por causa de - começou Ramiro.
- Não precisas de contar, meu filho, que eu sei tudo! Senta-te aqui à mesa!
Lá fora, o temporal continuava. A chuva e o vento faziam abanar a cabana, como se a quisessem derrubar. Sentaram-se à mesa, em bancos de madeira, um de cada lado, de modo que ficaram frente a frente. Ramiro viu então uma caveira sobre a mesa e teve um sobressalto.
- Não te assustes, meu filho! - tornou a velha. - É nisto que se transformam as belezas do mundo, os bons e os malvados, os ricos e os pobres. Eu sei que gostarias de ver a tua sereia transformada em mulher. Vou-te dizer o que tens de fazer. Não é difícil, mas desde já te aviso: o que vais fazer só pode ser feito uma vez; se correr bem, a tua amada sairá das profundezas das águas em forma de mulher e assim permanecerá para sempre; se correr mal, nunca mais a verás, nem mesmo sob a forma de sereia.
- Estou disposto a tentar seja o que for - assegurou Ramiro.
Então, a velha explicou tudo, tim-tim por tim-tim:
- Primeiro, vais construir uma casa de madeira, na duna, no sítio que chamam Costa Nova, pintando-a às riscas da cor que mais gostares, alternando com branco, por causa do mau-olhado; depois, vais pescar a Lua Cheia.
- Pescar a Lua Cheia? - perguntou ele, incrédulo.
- Foi isso mesmo que eu disse - continuou a velha. - Metes-te no barco numa noite de Lua Cheia, vais vogando até onde vires o astro reflectido na água. Aí, paras e lançando a rede, puxa-la devagar, de modo que traga a Lua inteira lá dentro. Então, só tens que ir até à casa nova e atirar a rede para o seu interior e logo verás a mulher que foi sereia a sair da água e a entrar em casa. Pode parecer que é tudo fácil, assim, mas o grande problema é que nem a Lua te pode ver nem pode haver o menor ruído até que chegues a casa com a Lua dentro da rede. Não te esqueças! Ao mais pequeno barulho, estará tudo perdido. Ah! ainda uma outra coisa: não podes contar isto a ninguém, nem mesmo à tua madrinha. Para te não esqueceres de nada, repete lá tudo até haveres decorado todos os passos a seguir!
Três meses levou a fazer a casa e a preparar o moliceiro, pondo na parte superior da proa um acrescento em forma de quarto crescente, o qual, cobrindo-o, não deixaria que a Lua o visse. Numa noite de Lua Cheia, meteu-se no barco, foi até onde se via a Lua toda reflectida na água, atirou com cuidado a rede em toda a sua volta e foi puxando, vendo com satisfação que a bola branca vinha dentro dela. Seguiu então na direcção da casa que fizera, aproou na areia e saltou para terra, sempre com a rede fechada na mão e a bola luminosa lá dentro aprisionada. Foi então que o silêncio foi quebrado, porque uma gaivota que dormia na praia ia sendo pisada por Ramiro e levantou voo a grasnar, cheia de medo. Quando o grito da ave atravessou o silêncio da noite, a bola branca desapareceu de dentro da rede e tudo ficou perdido.
O pescador tornou ao barco, navegou até umas covas que havia do outro lado da ria, saltou em terra, deitou-se no chão e chorou mil dias e mil noites sem parar.
As lágrimas foram tantas, que encheram as covas e o Sol, secando a água, deixou-as cheias de sal.
Tudo isto se passou há muitos, muitos anos, mas ainda hoje se podem ver as salinas, que são o sal das lágrimas que Ramiro chorou, tal como muitas casas que depois fizeram na Costa Nova e, porque gostaram da que ele tinha feito, lhe seguiram a traça. O moliceiro, esse, continua a apresentar aquela proa em forma de quarto crescente..."







domingo, 22 de fevereiro de 2015

Obrigada CETA pelo que 'Aconteceu neste palco'

Por ocasião do aniversário dos 56 anos do CETA (comemorados com pompa e circunstância ontem) fui convidada para uma palestra sobre o palco, juntamente com o Jorge Fraga, o Joaquim Vargas e o Zeca Fino, que aceitei com muita honra. Para falar sobre histórias de palco.

São muitas as histórias sobre aquele palco, muitas venturas, muitas aventuras.
Peguei nas que são a minha memória mais direta porque são peças que encenei, cujos textos escrevi ou nelas participei. Escrevi à pressão, duas horas antes da sessão, este texto, olhando para a cronologia para não me esquecer de nada.

É uma rima torta, mas que saiu direta do coração. Isso é certo. Relembrando todos os bons momentos. E é só isso que importa e importará sempre.

Obrigada Ceta.

Aqui vai:

Aconteceu neste palco…

Aconteceu neste palco, não começa bem,
Pois não me lembro de nada que rime com palco.
Talvez pó-de-talco, mas isso é coisa que este palco, não tem.

Aconteceu aqui atrás deste pano, talvez fique melhor
Olha, aconteceu o Papiniano, menino que tinha um plano
E que da sereia, se perdeu de amor.
O Vargas lá estava para conduzir a cena,
Amigos do catano, amigos que valem a pena,
Acontecem sempre neste palco, ano após ano.
Às vezes toda a semena.

E quando Roubaram a lua? O mestre agulhas, a ria sem sal,
O Arlindo, o Lau, o Romeu, a Filipa, a Paula, o Artur, o Vargas, o Camilo, a Teresa, a lista é interminável, eram tantos, todos a marchar, desculpem, vou parar,
Mas todos foram de um brio tal, todos foram de tanto esforçar,
Que até para lá dos mares, na ilha do sal,
Desta gente se deve ter ouvido falar.

Por esta ocasião nasceu o Manelinho, 
grande inspiração para o resto do meu caminho.

Depois veio a Tricana, deusa de aço
Navegando através do espaço,
A Patrícia e o Mané
Sem perderem o pé
Atravessando a ria, mas não a nado,
Vinham na sua nave espacial
E ninguém lhes levou a mal.
Pois vinham para conhecer as gentes do passado.
Ah isso foi espantanífico, pois saiam todos de dentro de um frigorífico!!
O Arlindo e o Lau,
Improvisavam sempre a cena em que assavam mesmo o bacalhau!
Não ficava muito mal,
Mas era o desespero do Samy
Que é um grande profissional.

Enfim, o tempo foi passando, um dia de cada vez,
E depois vieram todos outra vez
Eu tu ele nós vós eles,
Todos num quarto dos anos 70, todos a cantar
São dois braços, são dois braços, servem para dar um abraço....
Até o Sérgio Godinho veio depois visitar este povinho.
Foi por essa altura, que nasceu o Pedrinho.

Depois para a Agustina não ficar triste
Reinventou-se-lhe a felicidade,
E não mais a Agustina teve de penar.
Canta Agustina canta,
Canta que o homem do Balon, um dia, vem-te buscar.

O Polegarzinho era pequenininho,
Alguns queriam fazer-lhe mal,
Mas ele sempre se escapava,
Porque era um espertinho tal
Que nunca ninguém sabia bem onde ele estava.
O Morais assustava os meninos,
Com os seu passos de gigante.
Mas tinha farfalhudas sobrancelhas,
E de um grande actor, o semblante.

Depois vieram as Mulheres.
Ai as mulheres, ai o mulherio!
Se perguntarem ao Samy,
Certamente ele dirá que a melhor parte,
Foi tirara-nos uma fotografia às costas
Com toda a sua arte.

Depois o Diabo veio cá fazer das suas
Pedimo-lo emprestado ao Castrim.
E como era um Diabo de luas, um pouco assim-assim,
Para o fazer não foi preciso uma pessoa
Mas sim duas.
O Morais e a Cláudia deram o corpo ao manifesto e meteram dentro do cesto, um montão de almas perdidas e nuas.

O Rapaz Bicicleta chegou a pedalar.
Não era de Roma nem de Pavia
Era o Zé 'de' Albergaria!
Encontrou o seu amor,
Montou a sua máquina
E pôs-se a andar.
Adeus, até um dia!

É tudo verdade isto, tudo verdade,
Porque aqui neste teatro, seja de noite ou de tarde
Não vale a pena mentir, não vale a pena ficar gaga.
Porque aqui se não se ganha, não se paga.

Depois o Incrível Rapaz Bicicleta
Sonhou com gente a cantar
O Mané, a Catherine, a Ana, o Carlos, o Arlindo, o Sergio, o Maricato, a Fátima.
Tinham uma vontade incrível de partir para o alto mar
Dar a volta ao mundo
Ir a cima, ir ao fundo
E navegar, navegar.

Nem de todos aqui falei, porque senão não me calava.
Mas é bom partilhar com tantos, que são muito mais que quatro,
Tanta força brava, Tanto amor ao teatro

Finalmente o Rapaz acordou para a vida neste palco de tábuas lisas e escuras
Respirou fundo, perdeu as tremuras,
Sentiu-lhe a vibração
Estou no CETA caramba, bate-me o coração!
Viva o teatro, vamos passar à ação!

(E três vivas para a nova direção!)


Foto do Samy, na peça 'Não se Ganha não se Paga' de Dario Fo, encenada pelo Jorge Fraga (CETA - 2013)
Na foto eu e a Cláudia Alexandrino.



domingo, 25 de janeiro de 2015

João Pestana dos Sete Instrumentos - 2003

Uma aventura de outros tempos!

Eu e o ZéTó Rodrigues numa adaptação do conto João Pestana escrito em 1841 por Hans Christian Andersen.

Eu fiz a adaptação e dramatização da história, acrescentando algumas coisas, músicas conhecidas e fáceis de cantar ou músicas ´ró´ musicadas pelo ZéTó a partir das letras das canções da pequena peça. 


Ele tocava e eu cantarolava (desafinava).

E lá fomos nós de escola em escola representar para os meninos. 


Belos tempos, ainda hei-de colocar mais fotos que as tenho algures.

















domingo, 28 de dezembro de 2014

Há 13 anos! Primeiros Cursos de Expressão Dramática - ACAV 2001


Estas são imagens dos exercícios finais dos primeiros Cursos de Expressão Dramática (I e II), que leccionei na ACAV, em 2001.

Tão engraçado olhar para isto e verificar que aqui estão algumas pessoas conhecidas.

Bons momentos passados à sexta à noite, dos quais surgiram novos conhecimentos e boas amizades.

Na fotografia de grupo à minha direita está a Judite, que acabou por seguir Teatro.

Enfim, guardar as memórias de que somos feitos para as realinhar em novos projetos!










Brasil, Rio de Janeiro, Julho de 2013 - Inspirações da cidade maravilhosa

Descoberto em arrumações de computador, das coisas que nos inspiram:

Brasil, Rio de Janeiro, Julho de 2013.

O que dizer deste rio de mar de gente de Rio?

Da minha janela vê-se o corcovado, o redentor que lindo.


Pela minha janela, entram sons de helicópteros, todas as noites, sons de gente que janta, sons de aviões que pousam, cigarras à desgarrada.

Estes barulhos embalam, colocam-nos no mundo, fazendo-nos sentir o nosso centro de gravidade. Eu adormeço sempre em paz, descansada por isso mesmo. Porque o meu centro de gravidade adormece cheio de vida, cheio de cansaços, cheio de imagens.

No entanto ontem lá fora tiros, sirenes, helicópteros.

Não consigo parar de beber o suco de goiaba fresquinho e light, tira do frigorífico, põe no frigorífico, como se faltasse isso para sentir o sabor do Rio, no Rio.

A preparar as apresentações, os trabalhos os dizeres e os escreveres, paro. E penso.
Da minha janela vê-se o Corcovado, o Redentor que lindo. Lá em cima, indiferente ao barulho constante dos carros que passam. Todo o dia a toda a hora. Nem pensa em dormir este Rio.

De manhã vou correr com os demais, para o calçadão, ao longo da praia e cada passo eu penso: estou a correr no calçadão ao longo da praia, e a praia que é tão linda e o calçadão e o redentor que lindo.

Suco de goiaba fresquinho e light.

O Rio são vários rios. Centro, Botafogo, Copacabana, Ipanema, Leblon e Barra. Em sucessão de composições complexas.

Todo o dia de autocarro em tremedeira treme. Treme tremedeira, em corrida com todos os outros carros, autocarros, táxis. Claramente o nosso ônibus é sempre o melhor, ultrapassa todos.

E as favelas que entram pela cidade dentro como se alguém com uma retroescavadora tivesse arrastado um grande bairro de casas pequenas que acabou por ficar ali porque já não podia avançar mais, todo encolhido, enrugado, casas encavalitadas.

No Rio o sol acaricia a pele como em nenhum outro lugar onde estive. Acaricia mesmo. E a gente fica ali, nem mexe.

O lugar do evento fica perto de uma bela praia mas isolado do resto da verdadeira cidade. Como se alguém tivesse pintado um quadro bonito e perfeitinho do Rio. É lá que os visitantes serão colocados. Eu não, eu fico em casa da Aparecida, muito mais barato e simpático.

Em todos os restantes quadrantes o bulício é enorme, a confusão tremenda, a intensidade é toda intensa, em todo o lado.

Ficar em casa de uma brasileira foi uma bênção. Andar de metro, andar de ónibus como os demais, comprar a fruta e até arranjar a unha.

O chope, o pastelinho. Lanchonetes por todo o lado. O guaraná, o pastelinho, e tal.
A frase primeiro ‘estranha-se depois entranha-se’ ganha aqui um significado especial, é mais implacável, violenta, matadora. Primeiro estranha-se.

Depois a cidade absorve-nos como uma onda do mar.

Simplificação: falar português do Brasil. Sim facilita. Por exemplo bilhete de metro não entra na máquina. É virar imediatamente para trás e perguntar: ‘como é que funciôna esse treco?’ É escusado falar português de Portugal porque isso só demora a fila, atrapalha muito.
Ainda sinto a tremedeira do ônibus no corpo. Amanhã há mais.

Está-me a faltar a música, ainda não ouvi batuque. Talvez amanhã. Sim, falta isso.
No primeiro impacte pensamos: este lugar carece de limpeza e ordenamento. Mas à medida que o tempo passa o Rio lá encontra forma de nos dizer que tem de ser assim, foi assim, o Rio é assim.
Amanhã irei de novo para o jogging. Cada passo penso: estou a correr na Baia estou a correr no Rio.
O Rio por vezes feio e desordenado é uma cidade com vida própria.
Tenho de ir buscar mais um suco fresquinho e light.
Vou continuar a preparar a falação.

Passado outro dia já não dá grande vontade de escrever sobre o Rio porque se mergulhou nele…
Hoje teve muito de tudo. Subimos ao corcovado e fizemos a mesma figura que todos, clique, clique, de máquinas a disparar.
Toda a zona em torno da estátua parecia uma nave cheia de gente pisca pisca e gesticula e faz pose, pronta a descolar. Mas não descolava.

Os condores por cima das nossas cabeças voavam em círculos perfeitos. E olhavam descaradamente para os nossos cocurutos. Pareciam dizer uns para os outros, olha aquele ali, dá-lhe uma bicada.

E o bondinho que até lá subiu, tchk tchk. E o guia que dizia ‘ió are góinge to see a landsecaipe ‘uôu’. ‘Itese ina fio minotees.’

E todos nós, ordeiramente fizemos a ‘uôu’, em homenagem a uma paisagem absolutamente louca.

Lá em cima a sensação foi a de negativo. Toda a vida a imagem do Cristo do rio de Janeiro no nosso sistema de referências, nós cá e ele lá, nós em baixo e ele em cima, foi o positivo. Hoje foi o negativo dessa imagem. Agora estamos cá, e? Fica a imensa paisagem, de tirar o fôlego e o comentário, simplesmente para olhar, deslumbrante. E as centenas de pessoas a fotografarem a imensa e linda cidade, thckik thcki.

Depois descemos, a pé, e abandonamos o autocarro por largas horas. Como se subir ao monte fosse o baptismo de voo sobre o Rio, de e para o Rio.

Descemos e voltámos a subir para ir ao antigo largo do Boticário, agora abandonado, com as grandes pedras do chão, pé de moleque. Ainda fomos ao museu Arte Naïf do Brasil, e embora nenhum quadro da Frida Kahlo estivesse por ali, era como se espreitasse em cada canto, em cada bocadinho.  Paredes que contavam histórias, a história no Brasil, cheia de Portugal antigo.
Depois disto descemos as Laranjeiras, sempre a pé e aí sim, estávamos finalmente dentro do Rio. Virámos para o largo Glicério e tinha uma feirinha, excelente para passear, e água de cocô.
Aí experimentei o melhor da viagem, de tudo. Uma rodinha de choro, composta por velhotes de ar tisnado e sabedoria musical nos dedos, que orgulhosamente apresentaram a sua coqueluche: uma menina novinha, inglesa, que para ali foi estudar música e que por lá ficou. Tocava o clarinete, instrumento que dá um toque especial na roda. Todos os sons transpiram Rio e não sei se da caipirinha que me colocaram nas mãos, mas as lágrimas escorreram cara abaixo, deixando finalmente sair a emoção de tanta emoção. Estou no Rio, de caipirinha na mão, a ouvir uma roda de choro, é Sábado à tarde e hoje posso não ir trabalhar.
Finalmente chegou o resto da comitiva de portugueses e subimos ao morro para comer feijoada na tasca. Era em Santa Teresa, bairro. Tarde de Sábado a comer feijoada e a beber chope. Depois, já lusco-fusco subir ao cimo do monte estrada deserta acima para ver o Rio, do lado de Botafogo. Mais muito ‘uôs’, e ‘uaus’ e picadelas de mosquito descemos de novo e lá fomos para a nossa casinha eu para a minha e eles para a deles.
Na minha chegada tinha sempre uma conversa de uma hora com a Aparecida sobre as linhas de autocarro que devia apanhar. Verificar linhas de autocarro é uma dor de cabeça. Será dos sistemas de ônibus mais complexos do mundo, com autocarros que mudam de rota a todo o instante, paragens provisórias só para determinadas linhas, inversões de sentido e disto e daquilo. Um must deste intrincado é o Frescão. O Frescão é um autocarro com ar condicionado. Todos os autocarros andam a grande velocidade. Todos têm estampado atrás um número para o qual devemos ligar para fazer queixa do motorista. Lá dentro o torniquete aperta a barriga dos mais gorditos, mas têm de passar, dê lá por onde der. Aliás eu acho que o torniquete não é para impedir assaltantes de atacar o motorista e sequestrar o autocarro. É um incentivo ao emagrecimento da população.

Nesta altura, depois de loucas viagens de autocarro e mais uma e mais outra, o Rio já se entranhou debaixo da pele.

No dia seguinte, Domingo, o início da conferência para os investigadores mais novos. Aproveitámos e fomos ver como era, levantámos os papéis a aproveitámos o fresquinho do hotel para trabalhar, preparar falação etc.

Lá fora o sol chamava e então fomos até Ipanema (era de lá que ele chamava) à feirinha.
Vimos e cheirámos, arte e sabores e depois o mergulho (estou a mergulhar em Ipanema, estou a mergulhar em Ipanema). Comi um maravilhoso bolo de mandioca com côco que durou horas a digerir.
Incrível país este onde, segundo os Brasileiros estão em pleno Inverno. A praia cheia, havaiana no pé siricoli, siricolé. Pleno Inverno, viu?

Hoje a coisa esfriou. Levantar 6 da manhã para fazer duas horas de caminho até ao local da conferência. Amanhã terão de ser cinco, pois apresento às 8 e meia.
Seja como for acordo sempre às 4 da manhã com o barulho do tráfego. O barulho infernal do tráfego que começa bem cedo, para que as pessoas se passam espalhar em trajetos de casa-emprego pela cidade gigantesca. Tudo começa mais cedo mas nem por isso acaba mais cedo. A hora de ponta é quase permanente.

Hoje 8 da manhã já estávamos lá.
O resto do dia foi blá blá,blá etc….conferência.
E percebi porque é que a conferência foi colocada naquele hotel. Uma forma de evitar a tentação de colocar o pé fora. Ainda assim a barra e o mar do outro lado da estrada.
O segundo mergulho está programado para aquele local na despedida (não chegou a acontecer).

Hoje no regresso da conferência, já tarde, foi preciso taxista.
Muito simpático. 
Fiquei a saber: que na Rocinha - a favela onde passamos todos os dias de autocarro - há três delegações de bancos, uma rede de casas de eletrodomésticos etc.. etc e nunca foram assaltadas. As coisas estão a mudar. 

Incrível a imagem à noite, favela que se espraia da encosta cá para baixo.

Sempre que falamos com brasileiros sobre portugueses não dizem o que pensam de pior, é claro, mas o que pensam de positivo. Parece que a nossa maior qualidade e simpatia ao longo dos tempos é a nossa capacidade para o amor. ‘Os portugueses fabricaram a mulher brasileira, com uma gotinha de cada cor e que é tipo (fazendo o gesto ondulante e deslizante com a mão) ‘vai do corcovado ao pão de açúcar’, analogia da planície e dos morros com o corpo.

E lá continuou o taxista:
‘Os portugueses gostam é de – ‘chega para cá o teu pedaço que eu quero-te contar uma história’

Como colonizadores, muita asneira mas muito amor também, sempre.

(isto foi o escrito lá, debaixo de forte emoção há mais memórias, para depois).